Digger (2026)
O mexicano Alejandro González Iñárritu faz parte de uma cepa de diretores mexicanos notabilizados por conquistarem Hollywood e o mundo com um cinema tão potente quanto original e exótico. Tal qual Alfonso Cuarón e Guillermo del Toro, seus conterrâneos e contemporâneos, Iñárritu construiu uma carreira marcada por alguns blockbusters de fins puramente comerciais — seguindo a lógica de uma indústria que precisa gerar lucro, pouco afeita às questões artísticas ou estéticas — e filmes que, apesar de produzidos por grandes estúdios hollywoodianos, mantêm traços de obras de arte e laços de autenticidade de cunho notadamente autoral.
Cuarón e Del Toro, em sua trajetória, entregaram, por exemplo, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (EUA, 2004) e Círculo de Fogo (EUA, 2013), mas também Roma (México, 2018) e O Labirinto do Fauno (México/Espanha, 2006). Obras, entre outras tantas, que oscilam entre o medíocre e o sublime, entre o dinheiro e a arte. Iñárritu tem um caminho semelhante em sua cinebiografia, tão extensa quanto profícua, mas sem flertar tanto com o medíocre, embora inserido dentro das castas sagradas da máquina de fazer dinheiro da meca do cinema mundial, Hollywood.

Seus filmes têm a marca da extravagância e de um humanismo quase brutal, não só narrativamente, com roteiros por vezes inusitados e fragmentados, mas inclusive por câmeras “nervosas”, que perscrutam o ator em closes, movimentações inconstantes, enquadramentos inusitados e uma fotografia viva e forte. Tais características estão na chamada Trilogia da Morte: Amores Brutos (2000), 21 Gramas (2003) e Babel (2006); assim como em filmes como Biutiful (2010), Birdman (2014) e O Regresso (2015).

O diretor está de volta com Digger (2026), trazendo Tom Cruise, debaixo de muita maquiagem, como astro principal de uma tragicomédia tão ácida quanto realisticamente triste. Todas as marcas de seu cinema estão ali: a extravagância, o exotismo, o exagero, as câmeras em polvorosa, enquadramentos que alimentam o caricatural e o grotesco dos personagens em contra-plongées utilizados à exaustão. Fugindo de obviedades, Digger é uma crônica acerca da ganância, do poder do dinheiro em conquistar e destruir. Uma alegoria atualíssima de um mundo onde verdades não mais interessam, pois cada qual tem a sua, de acordo com sua conveniência; e onde somos, todos, cúmplices e copartícipes da destruição do planeta em prol da comodidade e dos prazeres que a grana proporciona.
Para além da atuação “oscarizável” de Tom Cruise, é importante atentar para John Goodman. Na pele do presidente dos EUA — uma clara paródia de Trump —, ele rouba a cena e ofusca o astro de Missão: Impossível. Acho que o Oscar de Ator Coadjuvante já tem um favorito para 2027.
Nota 7/10

